Meu Recanto
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Visita ao sótão
Mais de duas horas depois de saírem de Coimbra, o ônibus se imobilizava e eles desciam acompanhados pelo motorista que lhes abria o cofre da bagagem. Retiraram os sacos, despediram-se e davam alguns passos para se encontrarem num ambiente de vasta natureza, algo sombrio, no silêncio de uma floresta cerrada onde não se sentia viva alma por perto..., o único guincho que se escutava, era já longe, o ronco do motor do ônibus debatendo-se para levar de vencida a difícil e íngreme subida -. Vasco varria a zona com seus olhos, e dava mais alguns passos na procura de alcançar o banco de pedra que ali havia e sentou-se. Ludovina, circunspecta, seguiu-o, – que lugar mais sombrio!… – murmurava. --- É então, aqui, que foi o teu paraíso, meu querido!?.. --- Não, meu bem. Ainda não é aqui! É mais além! Ainda temos muito que andar para lá chegar!... Será lá no cimo daquele monte, vês, vês? Apontando para o alto. O caminho era muito difícil, acredito que não deve ter melhorado muito!… o que havia. Era esse que tinham de percorrer para poderem trabalhar e sobreviver. Nessa estrada poeirenta e esburacada que alguma coisa chegava até nós. Mas depois que montaram o ônibus e com paragem aqui, as coisas melhoraram… antes era terrível. São ainda cerca de três mil metros, sempre a subir, completava ele. --- Vamos lá enfrentar isso, então! Dizia ela, determinada. --- Espera!... Por favor, meu amor...! Senta aqui mais um pouco, batia com a palma da mão na pedra do banco, só mais um pouco minha querida, descansa!…. – Mais um momento de repouso para mentalizar de que temos de subir aquilo, a difícil tarefa que nos espera!...--- De acordo, assentia ela, acomodando-se ao seu lado com os sacos de viagem.
Vasco estava sendo sacudido por uma forte onda nostálgica, com uma forte dor pressionando-lhe o tórax; eram muitas emoções que se levantavam, tudo lhe vinha a consciência… a sua existência naquele ambiente rude, sombrio e hostil, criava-lhe um nó no estômago lembrando-se como sobreviveu ali até aos vinte anos, e a barriga começava a doer. A angústia abanava-o com suas memórias mais marcantes... E aquele estrondoso silêncio…! Até assustava…! Tudo o transportava para um espaço no tempo, algo longínquo, onde flashes entrecruzados traziam até si algumas imagens existenciais marcantes, gestos e premonições, que lhe reviravam o cérebro e faziam subir a pressão... Mas os momentos únicos, dispersos sob o azul infinito do céu, apaziguavam um pouco a dor e relançavam a boa nostalgia do nascer e pôr do sol único e balizador da sua existência... Vida bucólica, frugal, mas farta em desejos... Ludovina, sem saber de nada, pressentia no entanto, do quanto ia naquela cabeça e cortava o voo destravado daquela mente estoirada; --- Então meu querido, que foi? Tu não pareces feliz!? Lembro o teu entusiasmo e a ansiedade com que esperamos a chegada da Primavera para visitar teu torrão natal... pois meu velho, aí está, chegamos! Olha ela a altaneira e verdejante montanha! - elevando a mão para o alto da copa das árvores, - e que vamos explorar! Dizia, determinada!... Em frente meu amigo, esqueça o triste e reviva os momentos felizes! O passado é isso mesmo, passado, e todos temos um, só o futuro deve contar agora, nada mais!... Eu estarei com você, meu bem, passando-lhe a mão carinhosamente na cabeça. Coragem! --- Vamos, então, dizia ele alçando-se decidido e pegando nos sacos.
Algum tempo depois entravam na estrada que conduziria à aldeia. Continuava como a tinha deixado, esburacada e sem sinais de ter sido utilizada durante o tempo em que esteve ausente. Ludovina caminhava em silêncio, estava cansada, a tarefa era bem mais difícil do que tinha imaginado. --- Sentamos um pouco meu querido.... procurando uma lage na borda do caminho, onde sentar-se. Estou cansada, e você, meu bem? --- Eu, também!.… No tempo em que aqui vivi o terreno me parecia mais amigável, não tão inclinado.... sorriam. --- É.. querido!… muito difícil mesmo chegar até aqui!.... Como deveria ser difícil viver nesta terra!?.. Quantas pessoas habitavam aí quando estava em pleno?... --- Chegaram .., - Ele se arrebitava, parecia reviver, ao mesmo tempo que fazia as suas contas de cabeça - … a viver aqui … umas ... cerca de cinquenta pessoas, mas na época do Verão, apressava-se ele, quando os emigrantes regressavam em férias, chegava a ter mais do dobro! Era uma alegria muito grande, dizia, parecendo saudoso. --- E que faziam aqui os emigrantes durante as férias? Perguntava ela curiosa e pertinente, pois não via algo  interessante. ---- Oh.. boa pergunta, né? Sei lá...! Tanta coisa! Os tempos eram outros, os desejos e o sentir também o eram... Tudo era diferente... as novidades e a inovação vinham com eles, só dali eram esperadas as novidades… Hoje, as coisas a que naquele tempo se dava valor, não se dá mais. Mas eram momentos incrivelmente mágicos, eles eram os nossos heróis, nossos papais noéis... Tinham conseguido vencer! Tinham corajosamente transposto as fronteiras e ido mais além, muitos, bem longe… por sinal!? Que coisa, que acontecimento! Que orgulho, que enaltecimento!. Era a única esperança do nosso povo para conseguirmos conquistar mais e mais ainda, não sabíamos bem o quê, mas só poderia ser um melhor futuro, só podia, era só eles nos ensinarem o caminho, só eles poderiam trazer isso, que tanto ansiávamos, vencer. Nós vivíamos sozinhos, aqui não havia governo, não esperávamos nada de entidades oficiais nem outra… Até parecia que eramos autônomos...Era a alegria da grandeza e da novidade; os pais, família e amigos ficavam inchados de tanto orgulho desses feitos e toda a aldeia os enaltecia e eles mostravam apressadamente já o seu poder e conhecimento, falando alguns monossílabos estranhos, que faziam questão de mostrar, e davam de imediato uma grande festa com orquestra e foguetes a farta, para mostrar já seu conhecimento e poder, e na capela mais próxima mandavam rezar uma missa em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, a protetora, com seu manto largo protegendo-os em todas suas aventuras e conquistas, e Nela se refugiavam agradecendo cada dia, de tudo que de bom aconteceu e pudesse acontecer no futuro... Era a Ela que se confiavam e só a Ela... --- Ah sim, compreendi... E isso era só por aqui ou era por toda a parte, na região? --- Era por todo o lado de uma maneira geral e ainda é um pouco assim, embora mais sofisticado, nosso povo ainda pensa da mesma forma... Bem, meu querido, vamos lá terminar esta penosa tarefa, levantando-se e gracejando - estamos quase chegando! ou falta muito?...ainda. --- Estamos quase!.. disparou ele. Vês lá em cima aquele esqueleto de muros? …. ---- Sim! … --- Era a primeira casa da aldeia.…

Alguns minutos depois entravam finalmente na aldeia. A seguir à primeira casa estava a da Leonor, já mais adiante restos de casas, onde as pessoas se juntavam. Daqui víamos, à tardinha, o Sol desaparecer no horizonte. Ali mesmo, e apontava os locais que foram mais marcantes, havia uma figueira com grossos troncos, onde cada um escolhia o seu e sentava a comer figos, era também onde se davam as mais ferozes lutas entre nós, rapazes, e brincadeiras, mas eram mais lutas, pareciamos um povo primitivo, disse emocionado. Gente bondosa que habitava aqui, também havia, mas eram menos notados talvez por medo, aqui havia muito medo cada um tinha que criar um meio de se autodefender, uma segurança fosse através da família, fosse através de amigos, ou outra coisa qualquer... mas havia aqui gente muito boa também, que estavam sempre disponíveis sem esperarem recompensa!... Ludovina começava a comover-se. --- Vá, vamos amor, palmava-lhe as costas e … perguntava. --- Como as pessoas viviam aqui? Ou melhor, como sobreviviam?.... --- Trabalhando essa terra estéril, tentando retirar dela o sustento para todo o ano! Como estás vendo não era fácil! …. Todos tinham um canteiro, grande ou pequeno, onde plantavam e semeavam e algum animal para explorar. Páscoa e Natal, eram momentos especiais, comer um pedaço de carne nessas datas era regra, sacrificava-se então o animal e juntava-se à mesma mesa o que restava da família, se restava mesmo alguém, não era o meu caso e de mais alguns; nunca esperávamos visitas, se restava algum membro da família ele estava tão longe que não era possível voltar, fora isso nada mais havia. Em alguns momentos mais difíceis do ano, especialmente, Inverno, sobrevivíamos com o que nos dava a floresta, que era quase nada …. --- Ui!… Murmurava Ludovina, impressionada. --- Era querida!… e continuava – neste resto de estabelecimento, aqui, os homens anestesiavam suas dores bebendo, enquanto jogavam cartas até as tantas da noite, à luz de candeeiros a petróleo ou azeite. As mulheres esperavam em casa, angustiadas, com o Credo na boca, pedindo a Deus que a desinibição provocada pelo álcool, não despoletasse algum conflito adormecido, às vezes lá acontecia. Mas era também aqui que nasciam personagens tenebrosas, lobisomens, bruxas e todo o tipo de coisa má, que tornava a aldeia assombrada. -- Assombrada? – Sim! Tu não sabes eu também nunca te disse, mas aqui se criaram personagens assustadoras, por quê esta aldeia foi abandonada por todos que existiram aqui? Aqui se construíram as mais cruéis imagens de lobisomens e bruxas de que há memória, a população não entendia donde vinham e porque vinham, o que tinha de tão cativante para o sobrenatural um lugar tão sem nada…? E as pessoas viviam assustadas – Também fostes apoquentado por esses fantasmas? – Se fui! No medo, só no medo. O medo entranhou-se em mim, e imperou aqui, ninguém tinha confiança em ninguém, quem eram as criaturas que se transformavam em dia de lua cheia, à meia-noite? As desconfianças, só elas, nada mais… o medo era aterrador… e os relatos se sucediam no dia seguinte.. Poderiam ser todos! – No bar os homens olhavam desconfiados uns para os outros e até alguns mais afoitos propunham sangrar o lobisomem pegando-o lá na encruzilhada onde ele atacava e espetando-o com uma forquilha, e que assim lhe retiravam aquele mal que era um mal do demônio, um mau olhado, mas quem era essa tal criatura? Até poderia ser algum deles? Ou dos nossos? Ou até da nossa querida família? Era um drama difícil de resolver. Até os familiares desconfiavam uns dos outros. Parecia até que isso não passava de um boato, mas o fato é que em noite de lua cheia lá aparecia um que tinha sido fisgado pelo demônio, aparecia todo esfarrapado no dia seguinte de ter passado a noite por vales e montanhas às costas de uma besta que ninguém sabia quem era, nem mesmo ele. Todos tentavam terem boas relações com todos, não se sabia quem poderia ser. Mas ao mesmo tempo também havia piedade, pois não era culpa dele, assim entendiam, e Deus nos livre, diziam.... Que tempos esses!.. E as pessoas fugiram sem descobrirem? – Todos, afirmava ele. – Ui, já estou a sentir um calafrio pela espinha acima… dizia Ludovina. E a tua casa onde é? --- É aquela ali em cima, apontando para o alto junto à borda da floresta. -- Não está assombrada? Perguntava ela sorrindo. -- Não sei, não minha querida, será que esse mal se encrusta na terra? -- Ah… Não sei... meu querido, mas não tenhas medo, eu estou contigo, riam.... bem …. então, vamos, querido, continuando a caminhar....
Chegaram finalmente, pousaram os sacos e sentaram-se sobre a cobertura do poço. Em frente encontrava-se a entrada da casa com dois degraus descendo para uma pequena varanda que dava para a porta. Tudo estava despencado, o mato estava já cobrindo-a parcialmente e o telhado revolto. Vasco ficou silencioso, ela ia mirando tudo ao redor. Da floresta vinha um ar fresco com odores das flores silvestres e guinchos de animais..... --- É …, disse ela --- isto é mesmo melancólico, paradisíaco!.. É demais, até assusta.... não se vê viva alma, tudo está caído, parece mesmo uma aldeia fantasma! Ele olhava-a com ar concordante, enquanto ela decidida abria os sacos, estendia um pano sobre a cobertura de cimento, dando início à preparação de um pequeno lanche que trazia. É melhor comeres alguma coisa querido, já deves estar fraco!... --- Sim, obrigado! Estou de fato esfomeado! Depois veremos o que resta da casa.... --- Eu também já estou com fome, mas tu precisas alimentar-te bem, afirmava ela expondo alguns sanduíches, bolos e uma garrafa de suco.
Lancharam quase em silêncio, só algumas observações de Ludovina interrompiam o pensamento dele. Após, ela não resistiu a procurar a origem daqueles aromas, e embrenhou-se no mato para colher algumas flores enquanto ele ficava sentado a olhar a casa, janela do que foi seu quarto, e ao redor, relembrando todas as passadas e fenômenos desse tempo. Mas de rompante salta de dentro do mato Ludovina gritando que viu uma coisa...Ui...devias ver...tive a impressão de ver uma coisa estranha!... --- Que coisa estranha? É sugestivo, estive a contar-te aquelas coisas... e aí no mato há muitos animais... mas não foi nada do que estás a pensar, dizia apaziguador e a encaminhando e acompanhando para colher a flores...
Eles voltaram e com entusiasmo ela disse; ---- Então, menino, vamos lá visitar a tua casa!? Ele olhou-a com ar penoso.. -- Não tem mais casa!... --- Olha meu amor, sei bem o que estás sentindo. Eu até sabia que isso ia acontecer, o passado não nos larga mais, meu querido, vamos ter que saber conviver com ele. Coragem meu amor, alegra-te, tua mãe não está, tua família está, mas não está aqui e ainda bem.., mas agora, mais importante, tens me aqui a mim para tentar aliviar as faltas, se é que consigo, passando-lhe a mão, carinhosamente, pelo rosto. A casa não está a cair, está caída, que pena não dá para passar aqui um final de semana, dizia gracejando. Mas olha como a beleza da natureza por vezes nos pode assustar, quando é sossegada demais, sombria, não deixa de ser bela com todas as suas árvores, vida selvagem e tudo florido, quando chega a primavera, mas assustadora também, puxa a nostalgia com a sua vida parada onde nós já fomos felizes e onde as pessoas se deliciavam com a observação dessa vida. Observava ela - tem abelhas sobre as flores e como os passarinhos parecem felizes por te verem.... Olha, olha ali tantos, apontava para uma nuvem de pintassilgos e milheiritas que se enfileiravam sobre um cardo a disputarem as sementes. Tu vivestes num verdadeiro paraíso, meu amor, agora te entendo muito melhor!... sentando-se ao seu lado. --- É … verdadeiro paraíso …. era mesmo!... mas acabou-se …. --- É… mas a Natureza é sempre bonita, mas tem suas leis…! Compreendo, meu querido, a angústia e nostalgia que deves sentir..., custa muito.., mas repara que tudo na vida é assim… tudo se transforma, tudo se acaba… até mesmo os fantasmas..!.. Sorriu...
Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 10/01/2021
Alterado em 10/01/2021
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