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Uma menina loirinha

Fim de tarde, já o Sol, ao longe, se enterrava lá no horizonte, a noite começava seu ciclo no lusco-fusco. Helder dava a última volta com o arco, pelo carreiro da Levegada, caminho que o levaria ao acesso a arrecadação, por detrás da casa. Era aí a garagem do seu brinquedo, sua viatura, o arco, e em seguida recolhia-se no canto da lareira, como de costume. Começava a esfriar e o escuro assustava-o. Sua aversão à escuridão e ao piar do mocho, que vinha com ela, era teimosa.
Na cozinha já mamãe tinha acendido o lume e dado início aos preparativos para o jantar, colocando sobre o fogo uma panela de ferro com água, enquanto ia lá dentro ajeitar as camas e dar uma arrumadela nos quartos.
Sentou-se como de costume, no seu canto, encostado à parede que dividia a mesma da sala, e esperava de corpo esmorecido o comer para depois andar ao leito.
Ao som do crepitar do fogo, foi revisitando locais, ninhos de tentilhão, milheirita e pintassilgo, que tinha descoberto e sonhava agora com projetos de como poder criá-los numa gaiola, e coisas que não tinha concretizado naquele dia, mas que ficariam para o dia seguinte.
Com esse reordenamento de realizações, desejos e objetivos, cansado, o corpo foi-se enfraquecendo, deixando-se tombar para trás e ficando entalado no vértice da parede que dava para a porta de entrada, a qual estava encostada.
De corpo mole e olhar abstrato, assim esperava a qualquer momento que mamãe viesse dos quartos para meter algo dentro daquela água que fervia, fervia, há já muito tempo.
O silêncio, interrompido pelos estalidos das carrascas que explodiam no meio da combustão puxavam o sono e o estômago lembrava que dali daquela panela, embora quase sem água, mais cedo ou mais tarde sairia alguma coisa para aconchegá-lo. Tombado, ali estava, paciente de olhar semicerrado, perdido no vazio de uma sala semiescura.
De repente a porta se abriu um pouco. Que surpresa, despertou e, expectante olhava ela que se abria mais, mais, e mais ainda... lentamente se abria até ao meio, e incrédulo, de respiração alterada, se perguntava quem era, quem empurrava a porta, o que apareceria?.. não havia vento, a porta era pesada.... Começava, então, a aparecer na abertura, envolta em luminosidade, uma menina loirinha, de vestido branco longo até aos pés, sorriso encantador, que lhe acenava com a mão num cumprimento ou chamamento. Paralisado, de boca aberta, respiração suspensa, sem saber que pensar... Lembrou de mamãe, chamou, sem perder de vista a entrada da porta; ---- mãe ..... mãezinha .... mãe! Mamãe aparecia de rompante na entrada da sala; -- Que foi, filho?.. A menina desaparecia. ---- Mãezinha, estava ali uma menina loirinha, de branco vestida... ela abriu a porta e ficou chamando-me!... -- O quê, filho?... ó..ó...tu estás doido, menino!?... Uma menina!? Aqui!? A estas horas!?... E ….só!?.... Oh, Meu Deus, tu passaste-te, menino? Endoideceste?.. Caminhou até a rua tentando encontrar alguma evidência, embora fosse praticamente impossível naquele lugar e aquela hora... não havia ali ninguém naquela escuridão, a noite estava escura como breu, não tinha vizinhos por perto e muito menos meninas, pensou preocupada com seu menino, que coisa estaria acontecendo...?....
Ele que a acompanhava estava a ficar também surpreendido e sem argumentos, mas tinha a certeza do que viu, só podia garantir com afinco que viu a menina, pois tinha-a visto...! --- Mas ela confusa, se exaltava, - como assim!? Perguntava alterada. -- Não vês que por aqui não há nenhuma menina? Estás onde? Tu!? Será que estás a ficar doido, rapaz?! Repetia-se confusa e irritada e retornando para dentro e trancando a porta. Ele a acompanhava cabisbaixo; -- A senhora nunca acredita em mim!...
Ela encaminhou-se para a lareira onde pouca água já restava, retirou a panela do lume, sentou-o num banco e disse; -- Vamos lá conversar, Helder! Conta-me lá, filho, como tudo isso aconteceu, tu estás a intrigar-me com essa tua estória! E ele reganhou importância com a atenção, explanando com ênfase, em pormenor, tudo como se tinha passado. -- Ela era uma menina linda, mãe! Eu vi que ela forçava a porta... Tinha por aí a minha idade e a minha altura! Rosto redondo, muito branquinha e loirinha, de vestido branco luminoso, longo e rendado... acredita mãe ... eu vi-a!... Estou falando o que os meus olhos viram, mãe!.. Implorava... Ela ficou sem palavras, pensativa e apavorada ao mesmo tempo, aquilo ali, naquele ermo era impossível de acontecer, a acreditar nele, seriam coisas de outro mundo..?.. mas, seu menino jamais inventaria semelhante estória!?... até se arrepiou....
Muito confusa, ergueu-se, passou a mão carinhosamente pela cabeça do filho e tentou concentrar-se na preparação do jantar, que já era muito tarde...
Sentado no seu canto, decepcionado, pensava confuso na linda menina e donde ela poderia ter vindo. A explicação nunca a encontraria, mamãe, pelos vistos, também não, e até estava assustada... mas que coisa mais estranha...
Lá longe, preparando as hortaliças para a ceia, preocupada, de vez em quando lhe deitava um olhar inquieto, procurando encontrar resposta para tal coisa... No fundo do seu coração ia uma grande mágoa por não poder acreditar no seu menino... mas aquilo não tinha jeito ou então ele era um visionário...?

Comeram em silêncio, e ela tentou meter alguma naturalidade no momento, para dar impressão de ter sido um episódio de somenos importância e já quase esquecido, e disse, --- Sabes, Helder, houve aí alguma confusão, mas meu querido não penses muito nisso, fosse quem fosse, ou lá o que fosse.., talvez... alguém passou por aqui... por engano... e trazia a menina consigo... que... se …. e ele olhava-a na expetativa, de olhos arregalados, finalmente... ela, a minha mãezinha, tinha uma explicação, mas.., em vez disso, ela, descarregou, -- olha meu filho, desculpa, sou sincera, não sei...admito… irritada, e com ar carregado, disse: Olha, eu não sei, filho, mas não fiques chateado! Tudo isso parece coisa estranha! Não consigo encontrar uma plausível explicação! Na ponta deste ermo não tem menina nenhuma e tu o sabes, meu querido! Mas vamos deixar isso pra lá, filho! Tá?.. Não devemos pensar mais e nem falar pra ninguém! Entendeste!? Ele acenou com a cabeça..., Não compreendo nada... são coisas estranhas, sobrenaturais!?.. Ele olhava-a sem compreender por quê tudo aquilo, toda aquela aflição... foi apenas uma visita de uma menina linda... que até parecia um anjo…
Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 10/01/2021
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