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Um safanão de mamãe

Numa manhã no começo do Outono, acordava Ricardo com um safanão de mamãe lembrando-lhe que era preciso levantar para ir a escola. Que estremeção, que tristeza… aquilo era mesmo verdade. A realidade embicava para a execução há tanto tempo apregoada.., não queria acreditar.. Socorro!.. Mas nada poderia fazer... Ficou terrivelmente assustado… Vêm daí os primeiros traumatismos, a vida haveria de lhe pregar outros. Bateu forte no seu eu aquela manhã ainda ensonado. Foi aí que ele experimentou a sensação de impotência que o haveria de habitar por longo tempo, na sua vida. Desceu sobre ele uma grande angústia... e, juntando já algumas peças de um puzzle bastante complicado que há muito observava, começou a pressentir que aquela família não era como as demais... Até ali, seis aninhos e meio, já tinha na sua memória algumas marcações de acontecimentos com episódios tocantes, demasiado violentos que quase rasgavam sua integridade psíquica. Era nas mulheres da sua vida em quem ele se refugiava, que nesses momentos lhe davam colo, mas era também nas perguntas não respondidas, que sua imaginação vagueava por caminhos estranhos. Algumas cenas incompreensíveis ele deixava pra lá, como aquela na velha casa, de preto vestidas, sentadas e chorosas no canto da sala, e a pequenita irmã amortalhada dentro de uma caixa branca, pousada sobre a mesa do centro, rodeada de algumas lamparinas acesas. Não entendia e por mais que pedisse explicações, elas eram abafadas por um, pshiu! - Por quê minha maninha está naquela caixa? Já não brinca mais comigo?.. - Talvez fosse uma daquelas coisas dos adultos que criança não entende -, ou... talvez houvesse receio que ele entendesse, a morte era coisa ruim, era para esconder de criança… Sofrimento, muito, já ele via nos seus rostos… Agora, já ultrapassada aquela fase, e no momento angustiante como esse, já entendia mais alguma coisa, quase tudo, aquilo era e seria consigo, deveria ser forte, tinha de ser homem, diziam. Deveria tomar muita atenção aos próximos capítulos da sua vida… que mais aconteceria..?

Mamãe se afanava de um lado para o outro para lhe aprontar uma roupinha um pouco melhor, diferente da do dia a dia, com cheirinho a lavado, a sabão azul, a professora estaria atenta a como as mães mandavam seus filhos para a escola. Que bonito… até parecia rico; calção esverdeado, camisa azulada, que pareciam até novos.., - dádiva de gente com mais posses... - ... Encaminhou-o até a varanda e, agarrando-o pelo pescoço, dobrou-o sobre uma bacia de esmalte cheia de água e vigorosamente lavou-lhe a cabeça, cara, pescoço, pernas e pés... Depois, penteou-o à maneira; risco do lado esquerdo, tinha de ser, bem pronunciado, como mandavam as regras de cabra-macho, lado direito era para meninas; ajeitou-lhe a mala nas costas e puxou-o até a rua onde deveriam esperar, a qualquer momento, a aparição da Elvira; a futura colega, uma menina pré-acordada, seria a sua guardiã, e que viria do outro lado do vale, onde habitava, e que o acompanharia no seu primeiro dia de escola… Estava deveras difícil, a barriga tremia com tanta angústia, a jornada tinha começado mal. Há já muito tempo que vivia atormentado. Ainda chegou a acreditar no milagre de Jesus Cristo poder fazer alguma coisa por si, tanto que lhe tinha pedido para não deixar acontecer... Tremia de ansiedade, doía-lhe o peito com tanta incerteza no seu futuro…Saltavam-lhe as lágrimas, estava dolorosamente consciente de que ninguém viria em seu auxílio, nem mesmo Jesus em quem tanta esperança depositou... Tinha medo, muito medo… Ali a seu lado marcava presença a dona do seu querer, do seu destino e ele parecia estar já traçado… Enfrentaria uma professora que se dizia ser o terror das crianças e adolescentes, com punições severas ao menor deslize e onde não haveria lugar a apelação dos seus sumários julgamentos… Mamãe parecia também nervosa, mas orgulhosamente excitada com sua ação, -- também ela tinha passado pelo mesmo – , era o dever de mulher de vergonha, na ausência de marido, tomar em mãos as rédeas da vida e educação dos filhos. Mas era também imperioso mostrar para todo mundo que ali havia princípios, e juntava-lhe uma pitada de convicção, que só no cabresto se poderia construir um bom ser humano, um macho… Ao fim de longos minutos, lá aparecia Elvira que se esforçava por levar de vencida a íngreme subida do velho caminho que dava a sua casa. Era uma mocinha já na adolescência, alta, esguia, decidida, de rosto longo e tisnado, olhar aguçado e, aproveitamento escolar muito tremido; repetia o terceiro ano há já dois anos. Após algumas palavras efusivas de circunstância, acompanhadas de umas palmadas nas costas, sentiu-se um pouco mais alentado... Rapidamente mamãe se apressou a ditar suas ordens veementes, para ele e ela, e em seguida partiam para a escola que ficava ainda, pelo menos, mais meia hora de distância de sobe e desce, a andar bem…
Ele queria saber muita coisa, como era lá, se era verdade tudo o que diziam... ela ria de soslaio do seu ar assustado e acalmava-o de tantos receios... – Não tenhas medo, estarei sempre junto de ti, alguma coisa, me chamas, dizia. – Mas a professora bate? Insistia ele. Ela sorria, então, com ar misericordioso e de compreensão, e com a calma de quem já passou por muito, estampada naquele longo e tisnado rosto amarelento, seco e manchado, marcas bem visíveis da rudeza da sua existência, respondendo e medindo bem cada palavra, ao mesmo tempo que lhe rodeava os ombros com suas longas e finas mãos, respondia, – eh! é verdade! às vezes!.. mas só às vezes!.. – mas, mas, as palavras pareciam faltar-lhe, ela... bate mesmo!? Reformulava ele a pergunta com a voz já embargada e mais desalentado ainda... – é… mas, isso, não é a todos!.. Complementava ela. Aí falava a verdade. Não era realmente a todos, mas ele não faria parte dessas exceções. As estaladas, puxões de orelhas e reguadas que violentamente distribua, eram só para aqueles que não se lhe poderiam opôr, ou trazer-lhe problemas, que eram quase todos: os pobres, os que não tinham poder, nem ninguém que os defendessem, os de pouca renda, ou nenhuma... e miseravelmente, os que até ostensivamente lhe pediam que o fizesse… Com os filhos de gente com um pouquinho mais de poder, que eram pouquíssimos, a cantiga já era outra; a tolerância, afabilidade e compreensão para as crianças, eram seu forte…

Ainda no caminho, mas já a avistar de longe um magote de criançada no terreiro da escola e uma algazarra bem distinta daquela a que ele estava acostumado, só havia três crianças no lugar onde habitava. Foram-se aproximando e quando chegaram já a professora estava no centro do grupo dando suas orientações e perguntando os nomes. Havia no ar um cheiro a lavado, o tal sabão azul, vindo das batas brancas que todos obrigatoriamente vestiam, sinônimo de higiene desses tempos e, os sapatos que poucos tinham, sinônimo da diferença… A professora encaminhou-se para dentro da sala de aula e o rancho seguiu-a como cabritinhos saltitando ao seu redor, alguns até pareciam alegres, mas outros nem por isso, muitos apreensivos, mas, ainda assim, havia expectativa: talvez ela tivesse mudado nas férias, acontecido um milagre, tivesse até perdoado ou esquecido as diabruras que lhe tinham feito no ano anterior. Ele lá seguia no cortejo com seus dilemas, era novo ali, e por isso sempre desconfiado. Elvira estava por ali embrenhada na conversa com suas amigas que já não via desde o fim do ano letivo, – os lugares donde vinham eram bastante diversos e distantes, as crianças só se voltavam a ver quando se encontravam de novo na escola, – agora tinha as mesmas amigas e mais as novas colegas que a tinham apanhado no ano letivo, eram bastantes, um grupo bem numeroso…

D. Conceição dava aulas ali, há já muitos anos... Era uma jovem charmosa com mais de uma trintena de anos, bela, elegante, por vezes exuberante, de unhas e cabelo sempre bem cuidados, vestidos bonitos e bem diferentes dos que era dado ver por ali. Dada a boas falas, que, dizia-se até, namorava um capitão do exército destacado lá na Índia: homem de valentia, um guerreiro, que tinha já mostrado nas Forças Armadas grandes qualidades no comando dos seus soldados, contra tropas indianas lá na terra descoberta por Vasco da Gama, e onde os indianos agora tentavam a reconquista: Goa, Damão e Diu. O povo no seu melhor, com a sua imaginação bélica ao rubro, fazia circular por ali o bom nome de um suposto herói que estaria sempre presente como protetor daquela bela e cobiçada donzela...
Era ternurenta e emocionante a narrativa... Mas seria assim? Se perguntavam alguns mais céticos. Bem, não interessava muito, a aproximação a ela era uma realidade e assim também um privilégio, deixando a comunidade muito orgulhosa... Ela não contradizia e nem se opunha a tais boatos, que aqui ou ali deixavam transparecer alguma ingenuidade de quem os produzia. Antes pelo contrário, aproveitava a deixar mais algumas dúvidas no ar, que a criançada alcançava e reproduzia enfaticamente, porque isso lhe dava alguma segurança e muito estatuto, em relação as chefias e algum eventual predador, e também algum poder, um capitão do exército, naquele tempo, assustava mesmo… Embora alguma coisa da sua vida transpirasse, só aquilo que contribuísse para o seu enaltecimento como figura pública, parecia ser deixado ao acaso na boca da moça que fazia a faxina da casa onde morava e da escola. Muito pouco se sabia de concreto da sua vida, a aldeia donde vinha era muito distante e não havia boas comunicações. Só ia a casa de tempos a tempos, os transportes eram raros e difíceis as ligações, habitando sozinha uma minúscula casa doada por um benfeitor à escola e, era considerada por toda a gente o melhor que tinha a aldeia, a pessoa mais bela, com mais conhecimento e educação... Para provar-lhe a admiração e consideração, as mães iam à sua presença agradecer, louvando-lhe a paciência, oferecendo-lhe alguma hortícola, ovos frescos, frangos e fruta e implorar que espancasse os filhos, “quando precisarem não hesite, D. Conceição, dê-lhes pra baixo”. Era assim a dona do destino da maior parte deles, ou aprendiam ou eram massacrados na escola e, depois em casa, porque após a escola começavam outras tarefas e algumas bem mais difíceis…

Naquela manhã de apresentação, esteve toda ela com o coração apertado, olhava eles e elas, alguns e algumas já com treze, catorze anos e mais, homens e mulheres feitos, muito atrasados no rendimento escolar, e que jamais chegariam a assimilar aquilo que a professora tentaria fazer passar. Estavam todos juntos na mesma classe, meninos e meninas; eram quatro longas filas do primeiro ao quarto ano, com uma grande confusão entre as matérias e muitas dúvidas a mistura.... O medo apoderou-se ainda mais na pausa, ao meio da manhã, observando como aquilo era violento entre os mais velhos. Amigos não tinha para o defender caso precisasse, só mesmo a Elvira, que duvidava, apesar de lhe parecer uma durona… Na pausa do almoço, em que comeram sentados sobre as pedras mó de um despencado lagar de azeite, o pão com ovo frito que trouxeram de casa numa sacola, deu então, para uma observação mais cuidada sobre os mais calmeirões que numa moldura humana, ao redor de um círculo traçado na poeira do chão, se enfrentavam num renhido e violento jogo do pião, enquanto ao lado, de mãos dadas, candidamente, elas rodavam cantando um alegre e displicente, fui ao jardim da celeste, giroflé, giroflá.... o que fostes lá fazer, giroflé, flé, flá…

O regresso a casa desse dia tão denso, foi com uma sensação estranha, assim como, se de repente tivesse crescido imenso, já estivesse calejado da vida, mas, estava aliviado, tinha entrado numa família, seria até capaz de enfrentar aquela situaçãozinha sozinho, se preciso fosse, admitia já num breve e desvairado devaneio otimista... não, não, sobressaltado de terror, olhando de repente para o lado..... Que alívio.., Ela estava ali, a protetora, a Elvira continuava caminhando, calma, batendo com os pés nus na poeira do caminho, e Ricardo pediria muito a Deus que a mantivesse por ali…
Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 10/01/2021
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