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Pai tirano

Marta sabia bem com quem se estava a meter, a batalha que travaria, conhecia bem o adversário, mas estava decidida a dar uma lição naquele homem, que era seu pai.

Assim começou por contrariar as ordens recebidas, não as cumprindo de todo. No que dizia respeito a horários e companhias, passou a desrespeitar tudo, acompanhava com qualquer ser humano, horários não cumpria, chegava sempre altas horas da madrugada, especialmente aos fins de semana.

O pai gritava de raiva com a esposa de não conseguir segurar sua filha, mas ela respondia timidamente de que a filha era já uma mulher e só poderia fazer o que estava ao seu alcance, a persuasão, conversando.

Ele a esperou numa noite na entrada da porta. Quando ela abriu deu-se de caras com ele,---- Então menina isto são horas de uma mulher de vergonha chegar a casa? ---- Ela o encarou de frente bem nos olhos e retorquiu: ---- eu chego a casa às horas que eu quiser e o senhor já não tem nada a ver com minha vida! ----- Quase desfalecia o homem com aquele sopapo. Nunca tinha imaginado uma resposta assim daquela menina que ele criara e sempre dominou, que agora mulher, lhe pudesse enfrentar assim raivosa… Reagiu, tentando assustá-la com a violência, agarrando-a por um braço e vociferando, tu vais saber com quantos paus se faz uma canoa... pensas que depois de tudo que eu passei para te criar, vais agora brincar comigo, só pelo fato de seres maior? Estás muito enganada. ----- Ela violentamente sacudiu o braço e o empurrou e ele tropeçou e estatelou-se no chão. Com ele deitado no chão ela lhe disse com seu dedito em riste, ----- Você, meu pai tirano, não me mete mais medo. Cansei do terror! Durante vinte anos você me martirizou, enclausurou a seu belo prazer, mas isso acabou, e aquela mulher que está ali, que sempre fez na vida aquilo e só aquilo que você quis e nada mais, também está cansada de você e não pense que me assusta com chibata ou outra arma qualquer, porque eu perdi o medo, porque eu me apercebi de que o senhor é um covarde, tem medo, quer um mundo só para si, não aceita outro, onde só caiba gente como você, espécie rara, especial... Está e sempre esteve doente durante todos estes anos, e eu fui criada durante muitos anos por uma pessoa doente, por um louco.  Só posso estar louca também, preciso de psicóloga. ------ Ele escutou deitado no chão apoiado nos cotovelos, sentindo-se muito humilhado. Depois se levantou e foi direito ao quarto, pensando no que fazer a seguir, e fechou a porta. ----- Ela ficou sentada a chorar por ter-se excedido, era seu pai, com sua mãe a acarinhá-la, e a tentar por alguma água na fervura.  Confortando-a, as duas em silêncio ali estiveram longas horas, tinha sido uma revolta de verdade, tinha saído tudo o que tinha para sair, dali para a frente nada mais seria como antes.

----- Marta sabia que a esperava uma vida dura com uma constante de luta, mas estava disposta a dar uma lição de vida àquele homem. Tinha de ser, tinha que dar, ela não fazia por menos, ela tinha perdido muitos anos de vida livre, de brincadeiras e de pequenas coisas que todas as crianças têm e que ela não teve, perdeu o prazer de namorar de beijar e sonhar, ela vai sentir mais tarde em algum lado algum tipo dessa descompensação. ----- Será que eu sou uma pessoa normal? Perguntava ela para a mãe. Eu já tenho dúvidas. Criada por gente desta? ----- Filha tem calma, acalma-te senão pode ser pior. ----- O quê…?  a senhora ainda está com medo daquele covarde? Será que a senhora durante toda sua vida não se apercebeu de que aquele homem é um medíocre, um medroso um covarde que vive à sombra de uns senhores que o dominam e que para ele são seus deuses e seus donos e a quem seguir e que ele obedece cegamente e que tenta copiar nos seus comportamentos. Será que nunca se apercebeu mãe? Será que a senhora nunca viu que aquele homem não presta, que a senhora foi uma escrava dele e que só foi até onde ele lhe permitiu e só disse o que ele deixou?  Sua mãe estava desfeita. Não sabia que dizer, mas ela tinha razão, falava a verdade, mas estava com medo dos dois lados, estava tentando segurar as pontas, mas as pontas estavam bem desmanteladas.


A pouco e pouco se foi acalmando Marta. Sua mãe com seus carinhos a foi confortando em silêncio, a tempestade se foi acalmando e as duas se preparavam para se dirigirem para seu aposento, quando no corredor apareceu ele que de braço esticado e dedo em riste lhe disse; ---- menina prepare suas coisas e deixe esta casa, sob o meu teto nunca habitará alguém que me odeie! ------ Irei sim! não preciso do seu teto, pode dormir tranquilo eu procurarei onde dormir, nem que tenha que dormir na rua, não será por aí que você vai me vergar. Minha decisão está tomada, e vou já! começando a arrumar suas coisas mais necessárias no seu saco de portar às costas. ------- Sua mãe chorava, gritava agarrada à filha ----- não...! não sais daqui! a casa também é minha! ------- O quê? Você ousa me desafiar também? ------- Não estou desafiando ninguém, mas minha filha não sai de minha casa. Eu não vou deixar! -------- Deixa mãe. Não te preocupes eu tenho onde dormir. Ainda tenho alguns amigos, que consegui conquistar, por ele não teria ninguém para poder dominar mais à vontade. Portanto mãe fica tranquila que eu ficarei bem, eu tenho bom corpo para trabalhar, se ele pensa que me domina por causa do seu dinheiro que ele não ganha, lhe dão, engana-se, eu vou trabalhar e vou-me manter a mim e a ti se for preciso. Não tenhas medo mãe, eu estou contigo contra esse carrasco que só castra as pessoas que ele diz que quer bem, não castra mais ninguém, ele é um covarde que tem medo de tudo, tenta refugiar-se na sua casca de senhor importante, mas não vale nada.

Aquele homem estava completamente atônito com a coragem daquela menina, seu desafio era forte, e ele começava a aperceber-se de que tinha perdido a jogada. Voltar  atrás? Não podia! seu orgulho não deixava. E depois de tanta coisa que sua filha lhe tinha dito, de tanta ofensa, ele se sentia raivoso incapaz de tolerar, não mais iria esquecer. Se recolheu enquanto Marta corria pelos cantos a apanhar suas coisas mais pessoais, depois viria apanhar o resto, dizia ela para sua mãe. -------- Mas para onde vais tu filha? Não te inquietes comigo mãe, eu vou ficar bem, vou pensar muito na minha vida, e na tua também e tomarei uma resolução brevemente de como vai ser minha vida, mas debaixo das botas desse senhor eu não vou viver nunca mais na vida.

Sua mãe chorava desesperada.  Ela já tinha previsto que um dia isso pudesse acontecer. Sempre tinha andado segurando as pontas para que nunca ali chegasse, mas eis que chegou! e agora? que fazer? se perguntava a senhora enquanto Marta metia com raiva todos os seus affairs dentro do saco.


Marta saiu furiosa, com sua mãe chorando agarrada a ela, mas nada poderia fazer. Tinha vontade de morrer. Aquele homem sempre tinha sido assim, ninguém poderia discordar, era um verdadeiro ditador, brutal mesmo.

Sempre sofreu muito Alice para conseguir sobreviver ao lado de um homem daqueles, teve muitas vezes que anular-se completamente, o que ela dizia não contava, tinha até por vezes algumas manifestações de; ------ tu és uma pessoa menor, não sabes o que dizes, és demente.

Muitos e muitos anos de anulação de sua personalidade para criar sua filha, agora que ela já está criada, teve que fugir de casa. A besta que ela foi alimentando dentro dela galgou a cerca estava imparável, não havia nada a fazer para desgosto de Alice.

Para onde iria Marta? era a pergunta que aquela mãe se punha. Quem são seus amigos? que riscos estará correndo minha menina? Grande sofrimento. Com esse sofrimento desesperado, começava também a crescer a raiva dentro dela, o ódio àquele homem que sempre a escravizou, sempre a manteve debaixo de seu botim, ameaçada muitas vezes pelo seu poder, suposto haver, mas que na realidade se começava a aperceber que não era tanto assim.

Foi manobrando a seu belo prazer aquele homem, mas estava chegando ao fim sua exuberância, sua autoridade estava caindo na rua, sua filha estava aí..., quem sabe... num gueto qualquer tomando droga com seus amigos.. porque não? tudo possível. Se assustou quando pensou nisso. Minha filha drogada? minha filha nessa miséria? seria a vergonha da minha cara, da minha classe. Começava agora a tomar consciência aquele ditadorzinho. Tudo o que tinha feito até ali, tinha conduzido aquela possível situação, até talvez ela se quisesse vingar pondo seu nome na lama.

Passou a ser um homem incomodado, assustado, mas seu ego não deixava que ele perdesse tempo com essas ideias - ela voltará quando não tiver que comer - pensava orgulhosamente.

Estava bem enganado Victor. Ela não voltaria mais, era orgulhosa como o pai, dali tudo ele poderia esperar, a mágoa era imensa, desde criança que nunca teve uma pequena liberdade um pequeno amigo, uma nesga de experimentar o beijo, o amor, tudo isso ela nunca teve, sempre se obrigou a auto excluir, os colegas não eram para conviverem com ela,  era uma menina especial.

Sempre aquele homem pensou assim e sempre ela viveu controlada, sua mãe acabou concordando, quanto mais ela se tornava mulher mais sua mãe concordava, com o medo de sua filha amar...! que estupidez! beijar era  pecaminoso para uma menina como aquela...? que horror! não podia desculpar - pensava ela enquanto caminhava desencabrestada -, procurando sua vida.

Tinha sua amiga Luísa, também o Tiago, a Ritinha... ia até à Ritinha.... ! Em princípio aquela parecia ser uma pessoa legal. Se pôs a caminho a pé estava precisando gastar as suas energias para não cometer nenhuma loucura, seus nervos estavam tensos demais, seria difícil se acalmar.

Quando chegou ao apartamento da amiga que vivia nas Amoreiras, já tinha lá estado várias vezes, tocou à porta. Escutou quaisquer vozes do lado de lá..., esperou um pouco voltou a tocar. Por fim apareceu um moço a abrir a porta, meio torcido que lhe disse; ------qual é a tua minha? nos conhecemos? ---- desculpa ... aqui não é o apartamento da Ritinha? eu sou a Marta, ela está? Naquele momento apareceu  à sua frente Ritinha,  bêbeda, olhos inchados e sem saber o que dizia, estava delirando. Marta não queria acreditar no que seus olhos estavam vendo..! ---- minha amiga bêbeda daquela maneira? com aquele fumo? terá droga? Meu Deus! como é possível? Uma menina filha de boas famílias, que lhe ofereceram um apartamento para ela viver e estudar, confiaram nela, deram-lhe inteira liberdade desde criança? Não é verdade! isto não pode estar a acontecer-me, onde terá ela os miolos? será que ela tem mesmo? pensava em tudo isto enquanto descia aquela escadaria do prédio, se sentou em pleno passeio na rua, eram altas horas da madrugada e ela continuava ali. Na sua cabeça ia uma montanha de perguntas,  só sairia dali quando encontrasse respostas para elas todas.

Sentada no chão, com as pessoas a olharem, pensando que ela era mais uma drogada que por ali andava, pensava no próximo passo. Aquilo que acabava de ver tinha sido um choque demasiado forte, saía fora de tudo o que poderia imaginar, uma menina daquelas...?

As horas foram passando, a noite começava a passar a madrugada e a coragem com que tinha chegado até ali começava esvanecendo-se. Que fazer a seguir? seria que os outros amigos também tinham os mesmos males? para onde ir? voltava a encostar-se ao muro do prédio e se deixava ficar mais um pouco, mas seu raciocínio estava nulo, sua cabeça estava fora de órbita. Será que aquele velho e maníaco homem tem razão? não..! não posso acreditar! há aqui qualquer coisa que está errada. O que eu vi.., foi só hoje! um erro qualquer um pode cometer, com certeza que amanhã estará uma menina normal como até aqui, foi um deslize, um entusiasmo momentâneo, não voltará a acontecer. Pelo sim, pelo não, vou voltar lá acima e vou indagar bem! não quero fazer juízos errados, ela é minha amiga, tenho de ajudá-la se estiver a passar por um mau momento, e voltou a subir ao andar e tocar à chamada.

Tocou, tocou, a noite era silenciosa e todo o mundo começava a acender as luzes, teve que se conter. Resposta não obteve. Do lado dentro não se ouvia nada, tudo estava em silêncio. Dormiam com certeza, resolveu partir, dali não conseguiria saber mais nada, no dia seguinte se esclareceria aquela situação, se ela quisesse!

Voltou à rua eram três horas da manhã, escutando todo o tipo de piropos daqueles rapazes que acabavam sair das discotecas, foi caminhando sem medos, era um sentimento que já não a habitava, até esse, seu pai tinha feito perder. Foi até casa de Tiago. Aí sua mãe veio em seu auxílio surpresa com sua aparição àquelas horas, ela lhe contou o que se estava passando e a senhora disponibilizou um quarto para ela dormir, a acalmou e lhe prometeu no dia seguinte se interessar a sério com o seu problema. ------ Agora vamos dormir minha filha, descansa teu espírito. Tens aqui tudo para te servires, mostrando-lhe a cozinha o banheiro e deixando-a mais tranquila, ela se deitou depois de ir ao banheiro e comer uma sanduíche, adormecendo de seguida.

Marta dormiu até ao meio dia. Quando acordou estava atordoada, doía-lhe a cabeça e estava sentindo-se muito mal. D. Conceição foi-lhe preparar um chá, acalmando-a, dando-lhe segurança, e pedindo-lhe que não pensasse mais por agora sobre o que se tinha passado. ------ O tempo tudo vai resolver minha filha. Tem calma, vou à cozinha volto logo. Fica a descansar, dorme se estiveres a fim, eu te preparo o café da manhã. ------ Obrigado D. Conceição, a senhora foi um anjo que me apareceu, vim dar-lhe estes problemas todos...? ------ Não dás problema nenhum minha filha..! não penses assim! problemas todos nós temos, a vida é mesmo assim, sobretudo não faças disto que te aconteceu um drama..., não é drama algum! acontece minha filha. A vida vai-te ensinar a lidar com estes e outros problemas. Bem..., eu volto logo..., descansa querida.

Marta encostou a cabeça para trás, puxou mais uma almofada, tentou fechar os olhos e pensar em tudo que lhe tinha acontecido na noite anterior, de repente se lembrou como sua mãe devia estar sofrendo, ficou alarmada! se ergueu e foi de imediato até à cozinha pedir a D. Conceição licença para utilizar o telefone. ------ Serve-te querida à tua vontade, descansa tua mãe, diz-lhe que estás em minha casa, e depois eu falarei com ela.

Marta telefonou para casa, falou com sua mãe, escondeu os problemas que se tinham atravessado na sua noite, disse que estava tudo muito bem, mais tarde falaria com ela e que D. Conceição iria falar-lhe.

Antes de passar o telefone, pediu à senhora que não contasse nada da estória, depois mais tarde se resolveria, dissesse somente que estava tudo bem, que tinha dormido bem e que estivesse descansada.

Isso D. Conceição comunicou tal como era seu desejo, se despedindo e que mais tarde voltaria a ter notícias. Assim Marta voltou ao quarto e se deitou novamente, esperando que seu café da manhã chegasse com o carinho daquela senhora que a tinha salvo de uma noite diabólica.


Tiago tinha saído para a faculdade com o aviso de sua mãe para não manifestar nada do que se estava a passar com sua amiga Marta.

Assim que chegou Ritinha se lhe dirigiu e perguntou se tinha visto Marta a que ele respondeu que não. ------ Onde andará essa menina? perguntava ela preocupada. ------ Não faço ideia - dizia ele. Mas porque estás assim tão preocupada? passa-se alguma coisa especial? ----- Não... não.., não tive notícias dela. Já telefonei e não atende.

A chamada para as aulas começava, todos entraram e Tiago foi observando o comportamento da sua colega, lhe pareceu normal, nada de anormal. Pensou.., mas que terá havido com esta menina? será que Marta viu mal, será que ela está confusa, os nervos a turvaram? Bem ..., mas as aulas começavam e toda a atenção era pouca, deixou isso pra lá.

Na casa de Conceição era o estresse. Marta chorava de desgosto, preocupada com sua mãe e com o que estaria a passar entre seu pai e ela. Não poderia deixar ele abusar de sua fraqueza, sempre tinha sido uma mulher seriamente mal tratada e, agora possivelmente ainda mais, as culpas recairiam todas sobre ela.
Se levantou e se dispôs a ir até a casa ver da mãe. Queria ver com seus olhos como se tinham passado aquelas horas. Estava pronta a tudo fazer para retirá-la das garras daquele animal, sua progenitora era o que de mais importante havia, teria que a proteger acontecesse o que acontecesse, nem que tivesse que lhe faltar ao respeito, era a sua decisão.

Partiu Marta agradecendo e pedindo perdão a D. Conceição, deixando-a também preocupada com o que pudesse acontecer, mas preparando-se para as receber, disso fez questão de lhe dizer, até que arranjassem lugar para habitarem as duas.

Aí Marta a abraçou e chorou em seu ombro, agradeceu todo o bem que estava fazendo e jamais esqueceria, sobretudo o não ter feito muitas perguntas. Conceição a abraçou e lhe disse; ------ Tem calma minha filha, todas as famílias têm seus problemas, tudo isso se resolverá com o tempo, não cometas nenhuma loucura. ------- Fique tranquila minha amiga, eu estou bem consciente do que estou fazendo, dando um beijo e se despedindo.

Marta partiu a casa ver como tudo estava indo por lá. Levava o coração sangrando, mas nunca poderia voltar a trás! isso seria sua derrota que ele aproveitaria para se enaltecer ainda mais como o garante daquelas duas infelizes que dependiam dele! Nunca! pensava ela enquanto caminhava em direção a casa.

Quando chegou tocou à porta e sua mãe a correr atender. A abraçou chorando e lhe deu muitos beijos, estava sofrendo muito aquela senhora. Depois de se acalmarem um pouco ela perguntou; ----- Cadê a fera? ----- Saiu filha, ele não foi trabalhar, discutimos muito, quase houve agressão, mas ele já sabe quais são os meus sentimentos agora. Está desorientado. Eu disse-lhe que se fosse preciso optar eu optaria pela minha filha, não hesitaria, ele ficou destruído filha. Até tive pena dele... e saiu.

------ Bem mãe..., me dá mais alguns dias até eu arranjar trabalho, depois te venho pegar para viveres comigo. Vamos viver as duas, está na hora de por um ponto final nessa horrível novela------ Eu também posso trabalhar filha...? Vê se arranjas também para mim! como seria bom! eu posso trabalhar numa cozinha, sempre fui uma cozinheira cá em casa..., ou então uma arrumadeira num estabelecimento hoteleiro, ou costureira… sempre fui eu que durante anos costurei cá em casa...posso ainda fazer muita coisa. ------ Tá ..mãe, eu vou ver o que posso fazer, as pessoas que conheço e irei procurar onde assentar nosso futuro, vou deixar de estudar naquela faculdade paga por ele, não quero mais nada desse homem. ------- Oh... filha..., parar de estudar...? ------ Sim mãe! não te preocupes que eu tenho muito tempo para estudar, sou jovem, tenho o futuro à minha frente, trata mas é de ti, tu ainda és muito jovem, ainda podes muito bem vir a gozar de uma vida com muita felicidade. Uma outra vida com outro alguém. Deixar essa porcaria de vida balofa em que sempre vivestes, não tens nada não és senhora de nada, tudo é desse teu mestre, teu dono... Houve silêncio. As duas estavam com medo mas não queriam admitir, poderia provocar a fraqueza de uma das partes. Mas aquela senhora também estava a achar que já era tempo de experimentar outra vida, viver um pouco e agora até já tinha uma filha mulher para a acompanhar nessa aventura - pensava.

Assim ficaram as duas conversando, traçando planos para o futuro e foram preparando tudo o resto das suas coisas que mais precisava e que estavam por ali.

Enquanto mãe e filha estavam preparando tudo, dando voltas por todas as coisas que foram acumulando ao longo dos anos, chegou ele.

Elas se encolheram, mas de imediato aquela menina que se assustava, se ergueu de imediato e assumiu a decisão tomada, ali bem explícito e na cara da fera. A reação foi bem diferente do que estavam à espera. Ele se inclinou para a frente, deu dois passos, parecia atordoado...., em silêncio foi até à janela, puxou de um cigarro, acendeu-o e se pôs a fumar respirando a plenos pulmões, aquele ar poluído. Estava completamente desorientado, dava para entender, mas elas não o estavam menos.

Ficaram também na expectativa. Que iria sair dali, estavam com receio. Mas Marta não tinha outros planos que não fosse abandonar a casa com sua mãe. Seu pai não fazia parte dos planos de futuro daquelas duas mulheres. Ele o sentia, por isso estava desorientado.

Continuou de fumar, enquanto elas continuaram a arrumar suas coisas, decididas, ele revirava a cabeça por debaixo do braço na tentativa de observar o que elas estavam fazendo, foi vendo que era mesmo isso; Iria ficar só. Jogou o cigarro fora, voltou-se e correu para sua filha que tentava se esquivar pensando que era uma investida para a atacar, mas reparou que ele chorava, estava chorando como um menino. Ela se deixou pegar e ele a abraçou e beijou com quanta força tinha, sua esposa veio também, ele a abraçou conjuntamente e disse chorando copiosamente; ---- Eu errei, hoje estou consciente que errei. Peço perdão. Eu não mereço mais vossa companhia, continuai com vossos intentos, não guardo rancor eu sei que estou errado, eu errei muito, demais..... agora me apercebi de erros clamorosos de toda a minha vida, de como eu estava errado na minha conduta, não posso mesmo entender como vocês ainda estão aqui. Não me resta mais..., senão pedir perdão e se foi....., deixando aquelas duas mulheres chorando também e confusas, muito confusas mas com a alegria de verem reconhecida sua razão. Ele voltou atrás e disse: --- Se se forem agora, deixe-me pelo menos ficar vosso amigo… Sem raivas, eu quero renovar-me, limpar todo o meu cérebro, mudar de vida, filosofia e de amigos, que também estou cansado de ser um pretenso gentelman, mau para mim e os meus e pertencer a  uma certa pretensa casta social…mas não quero mais essa vida…Quero ser uma pessoa como todas as outras Se nos encontrarmos por aí… e vamos encontrar com certeza, vamos falando como estamos melhor livres, e poderemos, inclusive, apreciar melhor de que lado estará a razão, se a dureza das regras foram boas ou más..? Também eu tenho dúvidas, ainda, muitas dúvidas. Os exemplos que encontrarem por ai, serão os avaliadores e eles não faltarão e assim vocês poderão julgar-me muito melhor, não…? Claro que o mesmo serve para mim.. Vou tentar renascer e construir outra vida com outro alguém, se houver ainda alguém que me queira… Porque aqui o entusiasmo pela vida deixou de existir, ele já há muito que deixou de me habitar, mas eu fui muito apaixonado por vocês e, tudo o que fiz na minha vida foi pensando no melhor para vocês duas, não tenham dúvidas disso… Pode ter sido errado alguma coisa, mas o fiz convencido que era o melhor, me desculpem, mais uma vez. Sempre pus o que eu pensava ser o vosso bem-estar acima de tudo. Agora eu acho que vocês devem ir, não daqui, porque aqui é a vossa casa, eu é que devo ir, mas ir a outra vida, se não forem nunca mais mudaremos de vida, com as mesmas coisas, os mesmo sons, as mesmas habitudes em que iremos tropeçar, iremos sempre despoletar coisas antigas e voltaremos sempre ao lugar de partida, a raiva antiga acumulada, sentimentos estrafegados… não mais nos deixarão ser felizes... Está na hora de cada um ir a sua vida para bem de todos e tentarmos ser felizes, ainda, vocês têm tudo para o serem, muito felizes…. E esta casa ficará muito bem com vocês para recomeçarem a vossa vida já com uma base de segurança, eu quero isso, fico também tranquilo se souber que vocês estão na vossa casa..., começando de imediato a juntar suas coisas….
Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 10/01/2021
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