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Uma Rosa cheirosa
Rosa encarou bem quando o seu vizinho lhe propôs unirem os trapinhos e irem até Luanda, Angola, onde ele era já um empresário de construção civil. Apesar de ambos estarem solteiros, nenhum deles estaria fazendo planos para tal coisa, assim num repente, mas foi na conversa puxa conversa, lá no Bar da Associação, com o José, que foi aflorada numa conversa essa hipótese, fazendo-lhe ver coisas que não tinha pensado, sobre temas atuais, e com o Ambrósio concordando. Ela era uma moça de boa índole, a mãe soube dar-lhe boa educação, era uma mulher as direitas, dará uma boa esposa.

  A Rosa já nem pensava muito nessa possibilidade, em se casar.. que coisa...? Não quer dizer que não lhe puxasse, de vez em quando, para idealizar assim um namorado bonitão e forte como um touro, mas sabia bem que só mesmo por milagre isso poderia algum dia acontecer, ali não era terra para sonhar assim e era ali que ela estava e não veria hipótese de isso poder mudar. Mas depois da abordagem, e de ter ficado surpreendida e um pouco embrulhada com a proposta do Ambrósio, imediatamente começou a fazer contas a vida: Ele não tinha nada do que ela sonhava ou desejaria encontrar num homem, bonitão e touro, mas sabia também que essas ambições não passavam disso mesmo, ambições. Ali nunca haveria várias opções, era a lei do interior, muita vez sua mãe tinha dito.. era pegar ou largar, as oportunidades eram raras, se não pegasse seria outra que pegaria e ela ficaria por ali a ver o tempo passar, naquele vale de lágrimas... isto ela ia pensando enquanto lhe dizia que era coisa jamais imaginada e até muito arriscada, jamais lhe passaria pela cabeça meter os pés em África.. e tal e tal... mas, conteve-se em dar de imediato uma nega, a resposta teria que ser pensada, bem pensada, definitivamente…? Não, por enquanto. Ele entusiasmado com sua ousadia, e que os negócios ultimamente até tinham-lhe corrido muito bem, estava pensando muita coisa, e partia já a impressioná-la de maneira a entusiasmá-la. Como? Pensando já na compra de algo que pudesse mexer com ela, que tal um carrinho..? Poderiam dar umas voltinhas e ficaria por ali para quando cá viessem, que agora só lá para daqui a dois anos... dizia... A rede estava lançada, e um e outro foram para casa a pensar no curioso da vida, assim inesperadamente.., aquele encontro, por casualidade, que o José da Associação acabava de proporcionar.

  No repouso da sala da lareira, onde ainda restavam algumas brasas acesas, Rosa aquecia-se do frio, mas com os miolos a ferver... com aquela surpresa... e magicava como seria isso.., onde seria essa Luanda.., e o que eventualmente a poderia esperar aí, se se concretizasse esse contrato. Era um grande salto, duas semanas de barco para chegar, deveria ser muito longe... e como volto se precisar?, de urgência?.. Não, não voltarás mais, tão depressa, dali, só mesmo de barco e só de tempos a tempos é que temos hipótese, disse-lhe ele mais tarde quando se encontraram para falar mais. Mas disse-lhe também que lá era como se estivesse em casa, como fosse Lisboa, era tudo até muito melhor, não havia frio e não faltava nada, era uma cidade cosmopolita... E ali ficou Rosa parada no pensamento, com um olho numa possível aventura/realização.... de vida, casamento, um lar com filhos, e outro numa curta estória sem história, vivida numa aldeia sem nada, onde secariam todos os seus sonhos por completo, até ao fim de seus dias…

Mas o Ambrósio tinha o trunfo do carro, e assim quando ela menos esperava ele se apresentava com um lindo carrinho a porta e a convidava para irem ao cinema, bem longe dali. Claro, acertou na mouche, ela logo foi se arrumar e os sonhos cor de rosa remontaram de imediato naquela carola, que nunca mais acabava... Ele terá dinheiro? Era o que lhe ia na cabeça, ele ganhará bem? Terei uma boa vida? Como será ele na cama? Não me atrai, não vejo sexo com ele... Que vida... Tudo perguntas que seria preciso ela arriscar e confrontá-lo para poder fazer alguma ideia. Pois foi isso que fez, no intervalo do filme que até estava bastante interessante, mas muito mais seria conhecer o que eventualmente a esperaria do outro lado do Atlântico com aquele rapazola. Rosa escutou com muita atenção, o entusiasmo dele na descrição da vida de lá e que até teria empregados a sua ordem, que viveriam numa mansão onde ela teria tudo o que ela quisesse, desde galinhas a todo o tipo de animal e até horta com hortaliças. Ela é que iria decidir, a mansão tinha-a comprado há muito pouco tempo a um conterrâneo que necessitou do dinheiro para voltar para o país. Agora o filme passava-se todo dentro da sua cabeça, empregados, eu vou ter empregados, vou ser uma senhora, fazendeira? Mas que mais me há de acontecer...? Ria e… tenho de ir ao banheiro, disse.., tenho de pensar bem e idealizar que mundo poderá ser esse onde se tem empregados a servi-la e como serão? Lá é África...? Mas como vai ser? Eu não entendo muito dessas coisas, mas ele me ensinará.... Voltou para junto dele e: o filme está a ser interessante, estou a gostar! Ele ficou contente aceitou como elogio e voltaram para dentro... Mas a Rosa em vez de pensar em digerir o filme, foi pensando nas coisas sérias da vida, na sua mãe já em fim de vida, e quem era mesmo aquele gajo? Pois teria de investigar, ele não era dali, vivia na aldeia mais próxima, mas nunca tinha escutado nada sobre ele. Tinha de perguntar ao José, mas não poderia ficar só por aí... Tinha de saber mais, depois de lá estar tão longe não tinha quem lhe prestasse socorro...

Ambrósio a partir daquele dia começou a senti-la a afastar-se da ideia. Sem saber por quê, isso o intrigava e foi começando a tentar encontrar mais um motivo de interesse para a entusiasmar e aproximar, e então que tal: Passear no Domingo na cidade com a mãe, no seu carrinho...?

Ela quase caia a seus pés. Com sua mãe no carro do seu futuro genro? Mas mamãe vai ficar muito orgulhosa de ter uma filha assim!...Ele parecia ter ganho a parada. Dependia agora de como se passasse o dia. Tinha de caprichar nas escolhas. A coisa não parecia estar fácil, ela parecia que de repente se desinteressava, não mostrava interesse em ir mais além na coisa que ele propunha. Algo estava a correr mal para Ambrósio que agora estava apostando tudo na conquista dela e da mãe. Tinha até uma proposta nova para propor que seria uma surpresa, levar a mãe com ela para Luanda. Mas só lhe diria lá mais para diante, mas se calhar era isso mesmo que a estava a afastar, será que a mãe lhe disse: então e eu vou ficar aqui sozinha? Eu não vou contigo? Não me levas? Vai ver era isso mesmo...

Os dias passaram e no próximo fim de semana Ambrósio aí estava com uma proposta, se bem que nem chega a ser proposta, dizia, logo que te convidei pensei de imediato nas duas, pois tua mãezinha não poderia ficar por aí sozinha sem a filhinha, eu quero a minha sogra junto de mim... Pronto estava feito, as cartas estavam todas na mesa, não tinha mais nada de grande interesse que pudesse oferecer, agora só restava esperar o veredito....E ele foi entusiasmante, ela se pendurou no seu pescoço e pela primeira o beijou como namorado...

Ambrósio não sabia como aligeirar a relação, ainda estava tudo muito formal, tinha de conseguir fugir um pouco com ela, estava demasiado controlada, era preciso avançar um pouco mais na intimidade, ver como era, mas estava difícil... Pensava que poderia levá-la lá para o celeiro velho do seu avô sem que ninguém visse, mas ela aceitaria já essa malandragem? Ainda não estava na hora, era preciso rodar mais as claras, ser discreto na conversa e atitudes, ela poderia cair fora. Lá no cinema foi quando esteve mais próximo e viu bem como ela era boazona, que ela era um pedaço de mulher de fazer muito calor, fiquei todo o tempo cheio de tesão, meu Deus...pensou, chegou mesmo a pensar em se atrever mais, passar a mão, mas ainda bem que não o fez, tinha estragado tudo, aí é que desapareceria mesmo…

Ambrósio estava a ficar eufórico com a sua conquista e começava a dispender dinheiro demais com ela. Suas finanças não aguentariam, era preciso ter cuidado. Ainda faltava algum tempo e as coisas não estavam acertadas. Mas talvez que aquele negócio lá de Luanda que tinha deixado em vias de se realizar, acontecesse mesmo.

Tudo acertado e o dia se aproximava, no dia seguinte seguiam para Lisboa onde dormiriam para embarcar no seguinte. Elas estavam apreensivas, não tinham uma confiança de cem por cento naquele rapaz, será que vai dar tudo certo? Se perguntavam nos seus íntimos, mas reservado para não criar alarme uma na outra.

E o dia chegava. Na varanda, assistiam como ele carregava as coisas no carro, faziam um compasso de espera a dar as despedidas de olhares para a paisagem que lhes tinha feito companhia toda a vida, e como ele estava feliz. De repente um carro de polícia se aproximou, saíram de lá dois agentes, lhe deram ordem de prisão, apreenderam o carro e os sonhos se esfumavam...


Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 13/01/2021
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