Meu Recanto
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Uma Sexta Feira Santa especial
Era tarde, rentinho à noite, quando escutei o Sr. Patrício falar para uma senhora que se lhe apresentava ao balcão do estabelecimento: “olhe, senhora, aqueles ali é que sabem bem disso!”, apontando para mim e meus colegas, que alegremente convivíamos com uns camarões e umas cervejas, sentados num canto do bar... Olhei para ela tentando compreender o dilema. Que grande mulher, em altura, esguia, de longos cabelos pretos, grandes argolas dependuradas nas orelhas e um sorriso atraente e bonacheirão. Isto é talvez consigo, Ricardo, acrescentava o senhor, acenando a cabeça! Levantei-me e ela encaminhou-se na minha direção. E então contou-me sua façanha e a enrascada em que estava metida: Tinha prometido a sua mãe passar ali o final de semana santo e não encontrava um quarto em parte nenhuma da região, os hotéis estavam lotados. Estava tarde e não sabia como encontrar solução, sua casa ficava a duzentos quilômetros de distância. --- Pensava ser mais fácil! Dizia-me ela. Nunca imaginei uma cidade cheia desse jeito!.... --- É, respondi. Todas as semanas santas são assim, na nossa terra, senhora. --- Retire lá esse senhora, por favor! Implorou ela. Ainda não sou assim tão velha! Ricardo. Meu nome é Catarina, e sorriu bem, de verdade, com bondade e paz expressa em seu rosto. Eu estava derretendo-me. Olhei seu dedo na procura de uma aliança, mas não havia, minha imaginação pulou de imediato essa etapa, ela era solteira! Tinha certeza, estava sozinha com a mãe! Mas uma belezura daquelas sem marmanjo por perto? Não! Isso era impossível! E atrevi-me: --- Quantas pessoas são vocês? --- Duas! Sou só eu e minha mãezinha! E ajuntava, se me ajudasse, um quartinho, mesmo que fosse pequeno... dormimos juntas, uma cama de casal está bem para nós!... Parecia que ela sabia que poderia ajudá-la, mas eu não fazia ideia como? Interessei-me então a fundo naquela questão e comecei a mexer meus neurônios no sentido de, fosse como fosse, ela deveria ser atendida nas suas pretensões. Ali eu já estava a ver mais longe. Meus colegas da cerveja e camarão foram de imediato esquecidos, e comecei então a fazer uns telefonemas, com a permissão do Sr. Patrício, que com simpatia me estendeu o telefone sobre o balcão.... Minha exuberância estava ao rubro, me sentindo alguém interessante, útil.... Tenho de encontrar um quarto para a belezura, pensava. Dando uma de moço bem desembrulhado, conhecedor da minha cidade... e com elegância lá fui dissertando enquanto discava, sobre o turismo e as consequências para a nossa cidade, e para o país, ao mesmo tempo que ligava e desligava depois de receber as mesmas respostas: não tinham quartos vagos, estavam lotados... Mas não me dava por vencido. Ela desesperava, a mãe estava no carro sozinha, disse-me, eu vou só ver se está tudo bem, volto já. Fiquei na minha última tentativa, ligar a um amigo que estava de serviço no melhor hotel da cidade, talvez ele me conseguisse desenrascar um quartinho daqueles que sempre ficam para o fim se alguma coisa der errado.... Ele me disse em jeito de brincadeira, então uma nova conquista? Hein...! Talvez se arranje alguma coisa, seu malandro!..., deixa-me cá ver bem as reservas…! É, tenho aqui uma coisinha para ti! É pequeno, é um quarto secundário mas com boa comodidade! Nem queria acreditar! Havia uma hipótese!….Agradeci-lhe efusivamente, expliquei-lhe como ia fazê-la chegar até lá, desliguei o telefone e fiquei tentando controlar minhas tremuras que de tanto contentamento e vaidade do maravilhoso dessa minha façanha, estava difícil, esperando-a com falsa descontração ao lado do balcão. Quando ela reentrou olhou para mim com ar desanimada por não me ver ao telefone, e disse-me, está difícil! Não é? Ricardo, pronto deixe lá..--- Que nada! Respondi de rompante todo inchado, que parecia um peru selvagem. Tem um quarto reservado ali no Templars Hotel, mesmo ali em frente, apontando, dirija-se à recepção que alguém já a esperará. Mas dali já eu vim e disseram-me que estava lotado!?...Respondeu ela. É.. Pode ser… Mas eu cá tenho os meus conhecimentos!… Continuava a inflar e a sorrir... É logo depois do jardim, rematei, vá lá e tenha uma páscoa muito feliz com a sua mãe. Ela ficou eufórica e pegando na minha cara com ambas as mãos, me deu um forte e repenicado beijo no rosto, dizendo, --- Você, Ricardo, foi a melhor coisa que me aconteceu nesta páscoa! Obrigado de coração.... muitas felicidades para sua vida, e se foi..… Fiquei emocionadíssimo, olhei para os que por ali estavam e que assistiram ao desenrolar das diligências, inclusive o sr. Patrício e meus colegas, e as expressões eram de admiração na atitude, talvez por ser Sexta-Feira Santa, os corações estavam mais emotivos…? Mas no meu espírito caminhava já uma ideia: saber mais qualquer coisa daquele ser tão ternurento e que tanto me tinha impressionado no pouco tempo tempo que estivemos em contato. Vinha da capital, era a diferença, talvez a novidade, a minha curiosidade, quem sabe? Era o menos que poderia fazer, tentar uma aproximação, não perderia nada por isso. Mas e a mãe? Como poderíamos conversar.... digamos.... mais interessadamente, se acompanhada pela mãe?..… Foi assim com esta ideia que comecei a desandar despedindo-me e afastando-me dali. Precisava pensar, estar só... Aquela mulher mexeu comigo. Era Sexta-Feira Santa, estaria eu a ser impressionado pela data festiva?… que loucura!… Pela cabeça passava um turbilhão de coisas idílicas, talvez eu tivesse direito a uma coisa assim...!? Lembrava o rosto alongado dela, onde dependuradas nas orelhas dançavam as argolas com um passarinho no centro, que lhe davam um brilho especial, quando sacudia a cabeça para acomodar os cabelos. Da sua expressão emanava paz e amor, delicadeza, via-se que era pessoa bem-arrumada na vida, de diálogo fácil e caloroso, sotaque alentejano e olhar meigo. Precisava conhecê-la melhor, ir mais longe, procurá-la, palpitava-me que ali, naquele dia, naquela terra e naquele momento, estava acontecendo qualquer coisa de bom comigo: um milagre, talvez? O milagre do amor? Ri comigo mesmo… Não era Sexta-Feira Santa, dia da Paixão de Cristo? Tudo podia acontecer… Se Deus quisesse...?
Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 13/01/2021
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