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Tempo que não volta mais
Era no Verão que a vida mais se agitava. Eles estavam ficando homens. Tempo de férias de Verão, em que todos voltavam as suas origens. Começavam a entusiasmarem-se e animava-se o ambiente a medida que iam chegando, dando assim mais vida aqueles lugares sombrios, pobres e esquecidos... A rapaziada esperava os seus amigos, ex-colegas de escola, agora distantes uns dos outros, que nesta altura se aproximavam das raízes e compartilhavam as conquistas, aspirações, alegrias e os sonhos que iam acalentando dia a dia. As mulheres eram uma parte muito importante dessa conversa, desses desabafos, e elas acabavam por marcar quase tudo. Alguns que ainda não tinham arriscado muito na vida, especialmente na aventura da emigração, aproveitavam para fazer contatos pedir conselhos e até pedir orçamentos dessa aventura. Tinha de haver outra coisa qualquer na vida, começavam a prepararem-se para grandes aventuras, a vida assim parada não dava nada, e era importante arriscar quanto mais não fosse para descargo de consciência. Seria uma vergonha se se deixassem ficar, vagabundos, até, diriam… A partida para o estrangeiro era quase tão importante como fazer o serviço militar... para se ser homem. Os que já não se viam há tempo, se pensava de imediato que já teriam emigrado, pois era o desígnio de todos, era só preciso ter lá alguém amigo ou da família, ou, mesmo com ninguém, se arriscava... Estavam nessa idade em que se começava a equacionar todos os caminhos possíveis, e o feminino era parte importante nessa equação, tinha que ir junto, se já tinha, se não, deveria encontrar. Ela marcava presença constante no ideário, como era normal, para macho...e o estranho é que a coisa estava difícil por aquelas paragens, não havia nem mulheres, oh terra pobre! talvez por isso, as poucas que havia muito cedo os pais tratavam de as levar para a capital ou uma outra grande cidade, onde elas pudessem ter mais oportunidades, algum futuro nem que fosse como empregadas em casa de gente fina e de status, para prosperarem como gente de bem, absorver conhecimentos, até chegar a um bom casamento e virem assim a serem boas  esposas, no futuro, de alguns construtores públicos ou civis endinheirados, ou mesmo um operador mais especializado, que começavam a despontar na nova indústria ou comércio... Mas era uma carência...  começavam-se a inquietar os machos, e assim discutia-se onde e como encontrá-las, a esperança era a última a morrer. Alguma pequena expetativa que aflorasse, era empolada até a irracionalidade e dada já como adquirida, a vaidade de ter conseguido, poria aí uma enfase tal que quase se tornava realidade, mas as vezes tudo não passava de otimismo desmesurado. Todos procuravam o mesmo, o melhor, mas com muito pouco para oferecerem. Para os pobres, quase todos, a vida por aquelas paragens era insustentável, não havia condições! Mas isso era esquecido quando se juntavam nas noitadas e ficavam mais otimistas…

  Sábado à hora certa, a tal TV estava lá no Bar do Sr. Carlos, onde se poderia assistir a mais um episódio da série fantástica do Bonança, desvendar os misteriosos casos policiais, de O Santo, e rir, rir com vontade, das cambalhotas do charlot, Charles Chaplin e do Bucha e Estica, ou assistir a um derby futebolístico, acompanhados por uma ginjinha, um café ou uma cerveja acompanhada de amendoins, tudo numa alegria esfuziante.  
  Aqueles eram momentos de felicidade em que todos se sentiam verdadeiramente irmanados, os seres com mais sorte no mundo. Era de exigir mais? Não sei. Talvez. Se isso fosse permitido..! Mas o que tinham seria-lhes suficiente por agora. Muita gente desconhecia o quanto felizes eram aqueles rapazolas, ali naquele interior…! Não estavam politizados e nem queriam, sequer sabiam bem o que isso era! Desconheciam por completo tudo quanto se fazia lá pela capital para tentar alterar o regime. Nem mesmo nas cadeias, eventualmente gente que se rebelava contra a situação, essa juventude não conseguia, e nem queria, enxergar tão longe, seus olhos ainda estavam toldados. O conhecimento estava lá, algum, atrás de umas grossas paredes de uma qualquer universidade vedada ao povo, ninguém sabia o que se lá fazia. Fora isso, apenas uns quantos de boa vontade, e arreigada militância socialista, na clandestinidade, faziam chegar algo para informar de novos pensamentos,  mas até o mensageiro o desconhecia, por vezes, a missiva que levava, nem ele nem o povo não entendia esses escritos, e a fala era mais arriscado. E a maioria nem sabia ler.

  Assim decorria a sua existência, dia a dia, semana a semana, ano a ano.... O futuro era uma coisa incerta, não tinha clareza de objetivos, por ora, não valia a pena, era escusado pensar muito nisso, a noite e o final de semana chegaria e com ela a busca de qual o filme que passava no cinema, o contar centavos para comprar um ticket para a sessão no Cine-Teatro, na vila mais próxima, onde o Hércules os entusiasmava com a resolução dos seus problemas pela força dos  músculos; Robin dos Bosques com apelos a astuta e eclética justiça e Elvis Presley, galã sedutor, rodeado de mulheres belas e inatingíveis, mostrando sua destreza na conquista e no palco, ornamentando tudo ao seu redor de esplendorosos cenários, belos carros e muitas canções de amor, deixando-os na estratosfera, em coloridos e esperançosos sonhos, que só acabariam quando o fim bruscamente cortava suas mentes e as luzes se acendiam, saindo todos em fila, entorpecidos e em silêncio, com aperto de angústia no peito, uma sensação de serem ninguém, não terem para onde ir e só recuperarem quando o grupo por fim se encontrava já juntos na rua...
Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 14/01/2021
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