Meu Recanto
A minha escrita
Textos
Aquela figurinha do piano
Entrávamos e aquela figurinha esguia, elegante, de vermelho vestida, lá estava no centro da sala, num palco baixo e arredondado, sentada ao seu piano de cauda, alemão e dedilhando docemente as teclas. As mesas estavam implantadas ao redor daquele palco, e as pessoas comiam ao som da música que saia gerada pelos gestos das suas belas e elegantes mãos e, para muitas, algumas melodias lhes tocavam fundo no coração, foi naquele momento único da vida, de amor, luxúria, felicidade, ou então, também poderia fazer relembrar e explodir aquela raiva de estimação adormecida, sobre aquele caso mal resolvido de um momento ruim da sua existência no tempo em que foram gente ativa, importante, mais ou menos importante, conquistadora, arruaceira, sem vergonha... Não interessava, ali ela ia dedilhando para ganhar sua vida e colocava todo o empenho em agradar, fazer relembrar, com sua atitude, esses momentos inesquecíveis que todo mundo tem, com as melodias com que todos ou grande parte vibraram no seu tempo, enquanto comendo e conversando. Eu escutava aquela do strangers in the night e me lembrava os meus momentos de cafajeste, nas voltinhas com a Antônia, que metia na minha cama e quando não era na minha era na cama dela. Lembrei também daquela noite maquiavélica de temporal em que a chuva era tanta que cheguei a casa dela ensopado, e depois de fazermos amor ela se lamentava de que estava a ficar velha, estava a ter desejos esquisitos, já não sei o que sou nem o que quero... Claro que aquela conversa me surpreendeu e despertou para a pergunta: mas o que foi meu amor? O que se está passando com você? Assim tão insegura? Quem te pôs nesse estado? Ah... nada, estava a delirar, vamos mas é dar mais uma volta, e nós continuávamos com o que me tinha levado até lá... Depois de mais uma volta ela me pediu algo que nunca tinha pedido e que eu na minha completa ignorância estranhei muito e interroguei: Onde você vai, meu amor? Você já fez isso, aí? E ela se desprendeu e avançou destravada e me contava a aventura: – Há algum tempo atrás conheci um cafajeste que depois de chegarmos a cama me propôs coisas que eu jamais tinha feito até ai, fiquei tão maltratada que até me estou a arrepiar só de lembrar o momento, foi só uma experimentada e o expulsei daqui com violência e lhe disse que jamais me procurasse para tal coisa. Mas mais tarde me pediu desculpa e me fez entender o amor de outro jeito, agora passados dois meses, estou viciada e começo a ter saudades daqueles ensaios e não me perguntes por quê.!?.. estou a ficar doida, começo agora a estar mais virada para a moda do amor com tortura, estou ficando masoquista, eu atalhei e já fizestes mais vezes? E ela me disse que sim. Era ali onde eu estava depois de andar trezentos quilômetros e de me ensopar em água fria, que eu recebia a noticia da novidade amorosa da minha amiga, que eu considerava e achava tão frágil, que tinha todo o cuidado para não magoar. Até fiquei agoniado. Ela ha bem pouco tempo atrás me dizia que não tinha mais ninguém na vida, que vivia numa solidão danada e afinal andava com um sado-maso que sadicamente a violentava.... Disse-me que ao princípio não achou nada bem e até sofreu bastante, deixou de querer vê-lo e ter alguma relação com ele, mas algum tempo volvido ele voltou a insistir e ela aceitou entregar-se às suas práticas, que chegavam a uma violência extrema, mostrando-me algumas marcas. Dali, daquela experiência e daquela noite perdida, minha mente fervia, não conseguia mais permanecer por ali.., ela ainda me disse, olha tenho ainda aquele disco que me ofereceste no dia dos meus anos, há dois anos, Guitarra toca baixinho do Francisco José, queres escutar?, mas eu estava muito agoniado e frustrado de toda aquela viagem e daquela estória, e pensava que era ali naquela enxerga onde eu estava que era o local da tortura, ficando ainda pior. Bem, querida Antônia, vou-me embora, já, perguntou ela, é estou a trezentos quilômetros de casa, e está muito mau tempo. Olha dorme cá... disse-me, mas pouco convincente. Não, não meu amor, não vou dormir porque tenho medo que o torturador apareça por aí! – Oh.. estás chateado? ---Não, não, meu amor, estou agoniado… não gostei nada dessa história, mas o corpo é teu, só me resta retirar ilações para o meu futuro, não fui bom amante, tanto que queria proteger-te que acabei não sendo eficiente, e vou aproveitar a lição para no futuro tentar ser melhor, mas também, não perder tempo com quem não se entusiasma comigo...

Jacinto L Simões
Enviado por Jacinto L Simões em 16/01/2021
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